Sara segura firme ni pescoço de João para sair da cama. Ele a segura pelas costas e por trás do joelho e a coloca o mais gentilmente possível na cadeira. Então os dois começam a se dirigir ao portão.
- João, posso te fazer uma pergunta?
- Pode; responde ele, distraído com a teimosia da cadeira ao passar por uma porta.
- Porquê você nunca mais tentou nada... Você sabe... Comigo?
Sara achou que sua voz tinha traído seu nervosismo quando falhou no final da frase, mas ele não notou. Seus olhos, porém, saíram das rodas e se dirigiram imediatamente à ela, com a mesma testa franzida com que encarava as rodas da cadeira.
- Como?
- Tipo, é por causa do cabelo? Agora ela olhava para ele, com uma expressão chorosa. Ou da doença?
- O que você quer dizer? A expressão dele não mudava.
- Antes disso tudo acontecer; ela faz um gesto amplo com os braços; você disse que tava a fim de mim, e eu respondi pra você que só te considerava um amigo. Ela olhou para baixo, com vergonha por ter trazido aquele assunto constrangedor à tona. Ele porém não demonstrava nenhuma emoção além da atenção ao caminha que tomavam na calçada, à sua frente.
- Você disse que entendia e que não ia insistir no assunto depois daquilo
- Eu não insisti; respondeu ele, prontamente.
- Não! Você não insistiu, não estou falando disso... Depois veio a doença e foi horrível, e você continuou sendo um amigão. O melhor. Sou agradecida por tudo que você fez e tal... Mas eu tava curiosa... Você ainda... Sente aquilo... Por mim?
- Sim; ele respondeu, ainda olhando pra frente. E é meio insultante você falar que eu não iria mais gostar de você por causa de uma coisa como sua doença ou sua queda de cabelo.
Sara corou, e isso não era fácil de fazer numa situação como a dela. A resposta direta de João a atingiu como um soco e ela gostaria de ser tão direta como ele. Era firmeza demais para uma situação tão embaraçosa.
- Ah, me desculpe; Sara respondeu, envergonhada, só para se arrepender depois. Não tinha do que se desculpar e pedia desculpas vezes demais. Mas então porque você nunca mais tentou nada? Quer dizer, quando você está a fim de alguém com o tempo você insiste nem que seja um pouco né?
- Tá bom já chega; disse João parando a cadeira. Eles estavam então numa pequena praça e a cadeira estava próxima a um banco de concreto. Ele deu a volta na cadeira e sentou no banco de modo a ficar de frente com Sara e se inclinou, olhando pra ela. Você ainda não entendeu, não é? Quando a gente gosta mesmo de uma pessoa não precisa ter ela desse jeito; ele deu ênfase no que. Eu não preciso sair de mãos dadas com você, te beijar, namorar, casar ou nada do gênero. Quando você realmente está a fim de uma pessoa você quer que ela esteja bem. E agora, você precisa se concentrar na sua doença e em ficar bem logo, mais nada. Precisa relaxar, e sair, e respirar ar puro e toda essa besteira. Por isso eu te ajudo, quando dá.
Ela olhava pra ele com uma expressão de dor.
- Vamos voltar agora, tá bom?
- Ok.
Ele deu a volta de novo e manobrou a cadeira para fora da praça, pelo mesmo percusso que vieram. Ela estava visivelmente constrangida mas ele não parecia estar assim, então Sara ficou aliviada quando ele rompeu o silêncio.
- Você perguntou isso por curiosidade ou...
- Curiosidade; respondeu ela, rápido, talvez até demais. Eu estava pensando nisso há algum tempo e a doença foi a resposta mais óbvia pra mim.
- Você pensa demais; respondeu João, encarando a roda que falhou no mesmo lugar de antes. Precisa ocupar sua mente com outras coisas.
- Tipo o quê?
- Sei lá, faz tricô.
- Isso é coisa de velha.
- Velha é aquele tipo de pessoa que anda de cadeira de rodas e que precisa da ajuda de outra pessoa pra sair da cama? Ele falou, com um sorriso sarcástico na cara.
- Você é uma pessoa desprezível, sabia? Ela deu um tapinha nele, falando com falsa indignação. Fazer graça com uma situação tão horrível.
- Ah, calma vovó um soco tão forte pode me deixar roxo, retrucou ele.
- Idiota
- Olha, eu vou sair agora pra resolver umas coisas na rua e volto mais tarde ok?
- Aham, vai lá.
Quando João passou pela porta a ouviu chamando e voltou. Ela provavelmente ia pedir pra ele comprar alguma coisa, já que o tom não era de muito alarme, mas ele foi um pouco mais rápido do que o costume só por precaução.
- O que foi? Ele disse entrando no quarto e sentando na cama ao lado dela.
Ela, ainda deitada, pôs a mão atrás da nuca dele com rapidez e, com uma força incomum para sua situação o puxou para perto dela.
E o beijou.