quarta-feira, 26 de maio de 2010
01h00m
- Exatamente
- Não é fácil senhor, eu sou amigo de muita gente lá. De qualquer jeito eu vou me sentir como se estivesse traindo alguém
- Ninguém vai saber que você me ajudou. E você sabe que pedir sua opinião é a coisa certa a fazer nesse caso
- Com todo o respeito, essa não é sua tarefa senhor?
- Algumas tarefas devem ser delegadas Pedro. Eu tenho uma lista que a direção do curso me ofereceu. Me fale um pouco desses garotos
- Tudo bem. São todos muito inteligentes mas alguns tem umas características que podem facilitar. Acho que não deve considerar as irmãs Cristo, por exemplo
- Posso saber o porquê?
- São pouco tolerantes e fazem corpo mole. Dificulta muito a situação às vezes
- Certo
- O Roberto é grosso e extremamente indelicado. Mas é comprometido com o que faz. O grupo das aulas práticas dele sempre acabava as tarefas mais rápido. O senhor vai gostar de tê-lo na equipe.
- Entendido. Mas e quanto à sua escolha óbvia?
- Eu já ia chegar lá. A Isabel é flexível e deixa um clima legal no grupo, e é muito inteligente
- Continue
- O Leandro e o Pedro formam uma boa equipe. E também são bastante tolerantes, o que é sempre bom num grupo diversificado. São meio brincalhões mas não são estúpidos. O Leandro é bom com planejamento e o Pedro na parte prática. Coisa que o homônimo dele é super desfavorecido.
- Mais alguma recomendação?
- É melhor ficar longe do Elias e do Lúcio. São até legais mas são muito ignorantes. Causam um clima desagradável nas situações de tensão e criam confusão com as coisas mais simples
- Obrigado Pedro. Os quatro que você indicou vão ter uma chance. O resto das vagas eu mesmo posso escolher sozinho. Mas já vou escrever e despachar as primeiras cartas. Obrigado pela ajuda.
- De nada senhor
- O projeto que eu te enviei ontem como está?
- Alguns problemas com os equipamentos mas eu já estou consertando. Fora isso, tudo bem
- Ótimo se acontecer alguma coisa mais urgente pode me chamar
- Pois não
Imagine
Imagine II
- Marina você pode ajudar o Beto na Cozinha? Por aqui tá tudo tranqüilo, eu dou conta sozinha.
- Tá bom mãe, disse Marina saindo do jardim e indo pra cozinha, Beto minha mãe pediu pra eu te ajudar, o que eu posso fazer?
- Peraí, e ele se inclina para pegar um pote e uma faca, corta esses legumes pra mim por favor? diz ele apontando para a mesa
- Ok
- Eu vou passar as músicas agora, vocês podem me dar uma ajudinha? Gritou dona Lúcia, sua voz vindo agora da sala de estar.
- Podemos - gritaram os dois da cozinha
- Tá bom
- Cara sua mãe é muito louca né? Ela parece ser uma amiga sua da escola.
- É mesmo - diz Marina sorrindo - Mas você não pode falar nada, eu conheço seus pais lembra? Sua mãe também é super legal.
- Verdade somos sortudos - e surge uma pequena pausa - O quê que é isso? Sua mãe está preparando a trilha sonora para um velório?
- O que vocês acharam dessa? - gritou dona Lúcia novamente da sala
- Horrível - disseram os dois juntos, e trocaram um sorrisinho. Depois de um tempo como amigos é comum ter esse tipo de "fusão linguística".
- Mas é pra dança lenta, pra descansar um pouco entre algumas músicas agitadas.
- Põe uma baladinha no lugar dela Tia Lúcia.
- É mãe e tira essa música lenta do seu tempo, gritou Marina com uma ênfase maior na palavra "seu"
- RÁ RÁ - respondeu dona Lúcia - O que eu posso por no lugar?
- Mad About You Tia Lúcia!
- Tá bom!
- Que música é essa?
- Você já vai ouvir - e se ouve o barulho dos CD's batendo ruidosamente uns nos outros - Calma Tia Lúcia meus CD's não fizeram nada de mal!
- Desculpa! - disse dona Lúcia - Achei!
- Ah! - exclama Marina quando a música começa a tocar
- Gostei dessa - grita dona Lúcia lá na sala.
- Sabe, eu queria saber dançar lento. Na verdade eu queria saber dançar, mas eu fui genetticamente programada para ter dois pés esquerdos.
- Que isso Mags - disse Beto chamando Marina de um dos seus apelidos secretos e inexplicáveis - Não é tão difícil assim sabe? A Gabi me ensinou enquanto a pipoca estourava.
- Não é possível que algum humano me ensine a dançar desse jeito.
- Isso me pareceu um desafio, vem cá.
- Pra quê?
- Anda logo Mags eu não vou te morder, falou Beto, não muito, adicionou depois, sorrindo.
Marina ainda pensou um momento antes de largar a faca com um suspiroe chegar mais perto de Beto. Era tudo uma encenação é claro. Ela sabia, e Beto também, que aquilo foi uma indireta pra ele ensiná-la a dançar. Marina já estava reclamando da pouca aptidão dela para dança há um tempo. Afinal ela dizia sempre que " A dança é uma habilidade praticamente indispensável na sociedade atual". E depois de um tempo da amizade a telepatia também é desenvolvida.
- Muito bem, disse ele com uma cara divertida, agora tira as mãos da minha cintura e bota na minga nuca como uma menininha normal.
- Porquê?
- Que tipo de menina você é? Nunca viu um romance adolescente? A mão da menina sempre vai pra nuca do menino.
- Nuca, ok
- E minha mão vai pra sua cintura
- É claro que vai
- Sem feminismo exagerado. Agora fica parada e olha pro meu pé. Veja se consegue executar esse passo dificílimo: um-pra-lá um-pra-cá. Conseguiu pegar? Começa
- Não vou me desculpar pelos pisões no seu pé.
- Não se preucupe, um pisão seu não deve doer muita coisa; disse Beto com um sorriso de orelha a orelha que revelava o quanto ele estava amando a situação; Agora pode começar a dançar. E, se quiser continua a olhar pros seus pés. Quando você já tiver uma noção dos passos olha pra mim.
- Cindy Lauper! Eu amo ela! - Gritou dona Lúcia da sala quando "True Colors" começa a tocar
- Essa é boa - gritaram os dois, juntos novamente, Marina ainda olhando pros próprios pés e Beto fazendo um movimento estranho para poder desligar o fogão.
- Já tá tudo pronto – murmurou ele ainda olhando para o fogão e chegando mais próximo do rosto de Marina sem nenhum dos dois perceber – Nem vou precisar dos que você picou – emendou quase sussurrando no ouvido dela.
Marina respondeu com um resmungo e continuava sem tirar os olhos dos pés. Beto se adiantou:
- Sabe Marina você pode olhar pra mim
- Ainda não sei se consigo fazer direito, sem pisar no seu pé – respondeu ainda sem tirar os pés do chão.
- Tudo bem, pisões são parte essencial do processo de aprendizado, falou ele com uma voz macia.
Marina olhou para cima e viu aqueles dois olhos negros fitando-a intensamente. Por poucos segundos Beto manteve aquele olhar e ela ficou hipnotizada por aqueles olhos extremamente negros que pareciam olhar dentro dela. Daí Beto abriu um sorriso luminoso quebrando a tensão do momento e começou a falar.
- Viu? Você não pisou no meu pé! Parabéns!
- Obrigada, disse ela ainda embriagada e tão logo que saiu dessa sensação deu uma pisada no pé de Beto.
- Desculpa.
- Bem, disse ele, você não poderia acertar tudo na primeira vez não é?
- Até que eu não fui tão mal certo? Não é assim tão difícil mesmo.
- Eu te disse.
- Mas eu tive um professor bom
- Puxa! Obrigado!
- De nada, mas é a verdade.
- Crianças, eu vou sair rapidinho pra pegar umas coisas e já volto tá bom? – Disse dona Lúcia que parecia que tinha sumido do universo dos dois por um tempo.
- Tá – disseram os dois, e deram outra risada, dessa vez muito nervosa. Logo depois se ouviu a porta da frente se fechando. E os dois saíram um pouco do transe. A pequena reunião, não se podia chamar de festa, que eles estavam preparando era para um jovem casal que estava completando sete anos de casados. Os dois pegaram o que tinham que pegar e começaram a levar para arrumar na sala.
- É incrível não é?
- O quê?
- O Jorge e a Ana estão casados há um bom tempo e parece que eles ainda estão namorando. Esses dias eu vi os dois num dia frio, agarradinhos e conversando e rindo que nem dois adolescentes...
- É verdade. É assim que um casamento deve ser. Muita gente que se casou há menos tempo não tem um décimo do carinho dos dois. E muita gente que se casou há menos tempo que eles já ta se separando.
Outra música lenta começou e Beto olhou novamente para Marina e convidou-a para outra música estendendo a mão. Dessa vez eles se mantiveram com as cabeças mais afastadas, como num acordo silencioso para evitar outra situação constrangedora. Marina foi quem começou a falar.
- Isso me lembra uma coisa. Faz um tempo que a gente não fala de você Beto. Quero dizer de suas aventuras amorosas, retificou com um sorriso no rosto.
Beto ficou por um segundo admirando o rosto dela e depois de um suspiro muito longo ele começou a falar olhando em outra direção.
- Não tem mais ninguém que eu esteja a fim agora.
- Você sempre está a fim de alguém, não me engane.
- Tá bom eu estou a fim de alguém sim. Disse ele sorrindo do jeito que ele fazia quando fazia charme pra contar alguma coisa.
- Eu sabia, e é claro que você não vai me contar.
- Você sabe como eu sou: não falo até esquecer ou até a menina dar algum sinal que também está a fim.
- Sei, disse ela com a cara de frustrada.
- Mas ela tem um risco.
- Qual é? Disse Marina virando o rosto para ele.
- Ela pode dizer não e acabar com tudo o que a gente tem.
- Então ela é próxima de você?
- Não se faça de boba Marina, disse ele, e os dois pararam juntos. Você sabe quem é.
De novo ela ficou hipnotizada pelos olhos dele que agora estavam ardendo em chamas. O ambiente ficou silencioso já que a música tinha parado, como se ela soubesse que estava sendo uma intrusa naquela sala.
E de repente Marina viu que isso tudo fazia sentido. Que ela se sentia melhor quando estava perto dele, que estar ali com a face quase colada com a dele era a coisa mais perfeita que ela podia esperar no mundo, que ela se sentia absurdamente segura quando estava abraçada com ele, e como ela se sentia completa perto dele. De repente ela quis saber o quão perfeito ia ser dar um beijo nele. Ela queria aquilo agora mais do que tudo no mundo. Então ele se inclinou como que ouvindo os pensamentos dela novamente e a beijou. E tudo estava perfeito.