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terça-feira, 7 de setembro de 2010

01h20

Pedro não conseguia arranjar seus pensamentos direito. Nas ocasiões mais estressantes eles se distraía passando letras de músicas na cabeça. Mas essa situação era fora do comum. Era como aqueles momentos em que seus pensamentos se resumem em tudo e nada. A mente dele estava alvoroçada em um turbilhão de pensamentos mas ao mesmo tempo nenhum em especial se destacava. Todo o corpo dele se inclinava para a frente como se isso fosse acelerar o carro mais um pouco.
Mais tarde quando ele foi tentar contar a história não ia se lembrar de quando saiu de onde estava, quando chegou no apartamento ou qual foi a conversa no interfone. Ele ia se lembrar que o elevador demorou uma eternidade pra chegar e pra subir 22 andares. E ele poderia jurar que estava sozinho mas uma senhora simpática do 15º andar falou uns dias depois que tentou conversar com ele mas não teve sucesso.
O elevador para, outra eternidade pra porta abrir.
Quem atendeu a porta pra Pedro foi uma menina de cabelos castanhos, quase ruivos, com uma pele bem corada. Ela tinha olhos muito bonitos mas que no momento estavam com preocupação escrito neles.
- Oi Mari - disse ele - onde ela tá?
- Oi Pedro. Ela tá no quarto
- E como ela tá?
- Bem, eu acho - ela continuou enquanto os dois entravam. Ele fechou a porta - Ela tá descansando um pouco. Onde você vai?
- indo ver ela - disse aumentando um pouco a voz - Quero conversar.
- Pedro dá um tempo - respondeu Mariana abaixando a voz, quase sussurrando - E pára de gritar assim, ela tá dormindo e você não vai acordar ela.
- Que se dane, Mari eu vou falar com ela.
- Tá legal só não deixa ela muito nervosa, ela pode ficar com uns problemas pra dormir por um tempo. Qualquer coisa eu no meu quarto.

Os dois se separaram então. Ela foi para o outro lado do apartamento e Pedro caminhou por um corredor que dava para o outro quarto.
Ele estava entulhado de fotos na parede. Algumas eram de Mariana e de parentes, dava pra notar pelo toma de cabelo e pele parecidos. Os outros retratos mostravam uma menina da mesma idade de Mariana, mas essa tinha os cabelos muito negros e ondulados, uma pele branquíssima e olhos com uma aparência mais divertida que os dela. Não que isso importe um pouco pra história, na verdade não importava nem mesmo pra Pedro que passou por todos esses retratos rapidamente.
O quarto que ele entrou era bonito, e ao mesmo tempo bem simples. Tinha uma escrivaninha com muitos livros, uma cadeira no lado direito. Do lado tinha um aparador de madeira clara, com um aparelho de som e dúzias de CDs. Na frente dele tinha uma porta que dava pra uma simpática varanda mas ela estava escondida por cortinas. A luminosidade do abajur sobre a mesa de cabeceira dava um ar poético que deixava o quarto parecido com um quadro.
Na cama estava a menina dos retratos dormindo e ressonando debaixo de uma coberta clara. Não dava pra ver direito mas depois de uma segunda olhada você via que os lábios estavam inchados e alguns pontos da pele do rosto estavam arroxeados. A expressão dela dormindo não lembrava muito a jovem feliz dos retratos. Estava mais pra sonhos de discursos sérios.
Pedro se sentou ao lado da cama e fez um carinho nos cabelos dela.
- Lara - ele falou - Está dormindo? - Um sorriso apareceu no rosto da menina e ela olhou para Pedro
- Que coisa mais idiota de se perguntar pra uma pessoa de olhos fechados, numa cama, tarde da noite - Ela respondeu com um ar brincalhão que claramente era uma tentativa de tranquilizar. Não funcionou.
- Como você está? - Pedro continuou com o tom sério e o rosto contraído.
- bem - Ela respondeu - Toda roxa, morrendo de dor de cabeça, mas bem. Você não precisa se preocupar.

Pedro trocou sua cara de preocupação por uma expressão de espanto, com os olhos arregalados, e gaguejou um pouco antes de continuar

- Não preciso me preocupar? Você foi sequestrada, roubada e espancada e ainda fala pra eu não me preocupar?
- O pior já passou - emendou ela com um ar mais delicado de quem tenta convencer alguém sobre algo difícil - Eu estou bem agora e não aconteceu nada de grave comigo, graças a Deus
- Eles fizeram alguma coisa ruim com você? - Perguntou Pedro. Ela olhou pra ele com um olhar de que não entendeu o que ele queria dizer.
- Bem, é óbvio ?
- Não - continuou ele um pouco nervoso - Eles... sabe... Fizeram algo de errado com você? Te forçaram a...
- Oh sim - Interrompeu ela - Quer dizer, sim eu entendi. Não, não fizeram nada disso comigo, ainda bem.
- Ah sim.

Um momento estranho se instalou. Os dois ficaram alguns segundos sem falar nada, claramente embaraçados com a conversa anterior. Foi Pedro quem acabou com aquela situação.

- Onde foi?
- No centro perto daquele restaurante Japonês novo. Eles queriam o dinheiro que eu tinha na carteira mas eu não tinha nada. Aí eles começaram a me bater e a me xingar sabe? Eles me botaram dentro de um carro e me levaram pra um caixa eletrônico pra sacar algum dinheiro, mas também não tinha muita coisa na conta. Aí eles sacaram o que tinha a continuaram a me bater e a me xingar... Meu Deus como foi horrível! - Ela falava como se estivesse em estado de choque e a última frase foi dita num tom que parecia que era outra pessoa contando aquilo para ela.
- Sinto muito - Disse Pedro sem conseguir achar outra coisa pra dizer no momento.
- Obrigada.

Começou outro silêncio constrangedor. Dessa vez foi até bem vindo. Era necessário um tempo pra uma conversa dessa ser digerida. Foi Lara quem rompeu o silêncio dessa vez.

- Não foi culpa dele - Disse, lendo a mente do amigo
- Eu não botei a culpa nele
- Dá pra sentir você botando a culpa nele daqui
- Olha Lara eu realmente não quero ficara falando daquele idiota agora tá?
- Tá bom.
Outro momento de silêncio. Mas dessa vez Lara sabia quem ia quebrar o clima. Ela sabia que Pedro queria sim falar mal "daquele idiota e só estava esperando até ele começar a falar.

- Foi muita irresponsabilidade dele.
- Ele não foi irresponsável, sabia que ali era perigoso ele até..
- Então ele sabia do risco que você corria e deixou você passar por ali do mesmo jeito?
- Olha ele queria me trazer até aqui mas ele tinha que ir pra casa logo, eu falei que ele podia me deixar ali no restaurante e eu me virava até em casa. Ele não queria mas eu insisti. A culpa foi minha.
- Eu não tirando a culpa de você, sua idiota, mas ele não devia ter cedido à sua insistência.
- Ah, cala a boca.
- Cala a boca nada - falou ele, aumentando o volume - você já namorou muito idiota, e eu nunca falava nada, mas nesse você se superou.
- Não fala assim eu realmente amo...
- Ama nada. Você ama todo mundo que vê, é a vadia do "Eu te Amo" sabia? - Pedro falava muitas vezes isso pra ela.
- Sim, eu sei.
Seguiu-se outro silêncio. Dava pra ouvir os carros passando na avenida em frente ao edifício. Era um ruído que Pedro amava, poderia ficar horas ouvindo aquele barulho. Ele estava quase num transe com o som e por isso quase não ouviu o que Lara tinha dito.

- Você não precisava ter vindo tão depressa. - Os dois sabiam que a discussão tinha acabado
- Ah que isso, arrematou ele com um sorriso, eu demorei até demais.
- O fato de você estar numa cidade há alguns quilômetros dessa serviria como desculpa pra você não precisar me visitar por alguns dias. Era pra você voltar só amanhã.
- Tecnicamente eu já voltei amanhã, já passa da meia-noite.
- É sério Pedro.
- Eu não tinha nada pra fazer. Só ia voltar amanhã porque tava cansado pra viajar. Minhas aulas todas acabaram sabia? Quando a Mari me ligou eu dei baixa no hotel super rápido e vim pra cá. Você sabe que eu não ia dormir mesmo depois dessa.
- Quanto tempo você demorou?
- Ah isso não importa.
- Você veio correndo ? Que ajuda você pode dar com um poste enfiado na sua cara?
- Desculpa, não tava pensando direito. - Ele então mudou pra um tom sarcástico - Porquê mesmo? Ah sim! Porque minha amiga estúpida tinha sido espancada e assaltada por causa do namorado idiota e da própria irresponsabilidade.
- Ah vai, esquece isso. promete que, se alguma coisa tipo essa acontecer de novo você vai ficar mais calmo?
- Não vai acontecer de novo.
- Nunca se sabe, pode acontecer. Promete.
- Você vai tomar mais cuidado agora?
- Mesmo se eu tomar cuidado qualquer coisa pode acontecer. Promete.
- Tá bom, eu prometo.
- Ótimo.
- Você sabe que eu te amo garota?
- Sei sim, e eu também te amo seu idiota.
- Eu vou embora. Pede desculpas pra Mari pra mim?
- Porquê?
- Eu posso ter sido meio rude com ela quando cheguei.
Lara soltou uma careta de desaprovação. Não tinha mais ninguém no mundo tão gente boa quanto a Mari e quando alguém fazia alguma coisa com ela Lara ficava realmente chateada, mas acabou deixando pra lá.
É óbvio que Pedro não saiu do quarto. A conversa continuou por um tempo. Depois Ele se acomodou no chão com um urso dela como travesseiro e eles continuaram a conversar até dormirem.